• Cristina Paula Baptista

Inovação Social

Atualizado: 11 de Ago de 2019

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares Fernando Pessoa

Diogo Vasconcelos é o primeiro, no início de 2000, a alertar para a necessidade de o conceito de “inovação” sair do estrito domínio das empresas e da investigação aplicada e de ser usado em outros áreas. Ao constatar o crescimento de setores como a saúde, serviços sociais e educação, quer em termos de despesa pública e privada, quer ao nível da criação de emprego, Diogo Vasconcelos preconiza que, a médio prazo, uma inovação ao nível dos serviços sociais ou da educação seja tão importante como uma inovação na industria automóvel ou aeroespacial. 

Ora, não obstante o seu desaparecimento prematuro, o legado de Diogo Vasconcelos foi, e é, determinante na modelação das políticas da União Europeia (UE), designadamente na formulação da Estratégia 2020, o quadro de investimento e desenvolvimento da UE para o período compreendido entre 2014-2020.

No âmbito da Estratégia 2020 a UE publicou em 2013 um "Guia para a Inovação Social", onde se estabelecem as bases de uma agenda para a inovação social na Europa.

Mas, o que é isto da "inovação social?"

No conceito que nos é proposto pela UE, a "inovação social" pode ser definida como o desenvolvimento e implementação de novas ideias - sejam elas produtos, serviços ou metodologias - tendo em vista dar resposta a necessidades sociais, bem como criar novas relações sociais de colaboração. Trata-se de dar novas respostas a necessidades sociais prementes que afectam o processo de interações sociais.. As inovações sociais, destinam-se a melhorar o bem-estar humano e apresentam-se como inovadoras quer quanto aos seus fins, como aos seus meios. Elas são, não apenas boas para a sociedade, mas também representam uma melhoria na capacidade de agir dos indivíduos, "empoderam" os indivíduos.    

Um dos aspectos importantes da "inovação social" é que obedece a um processo definido, que pode e deve ser estimulado através de incentivos de vária ordem. De facto, processo de inovação social desenrola-se ao longo de etapas, através das quais as novas respostas às necessidades sociais são desenvolvidas, tendo em vista alcançar melhores resultados sociais. Assim, este processo é composto por quatro etapas principais, a saber:


  1. Identificação de necessidades sociais não atendidas ou negligenciadas;

  2. Desenvolvimento de novas soluções em resposta a essas necessidades sociais;

  3. Avaliação da eficácia dessas novas soluções para satisfazer as necessidades sociais;

  4. Intensificação e disseminação nas inovações sociais eficazes.  

A experiência diz-nos que estes processos de inovação social podem ocorrer em diversos contextos, mas o seu principal objectivo é criar uma mudança social. Isto determina que nem todas as inovações, mesmo as que ocorrem no sector social, sejam inovações sociais. As inovações sociais são impulsionadas por uma missão social e o valor que elas criam tem uma dupla vertente, já que é, ao mesmo tempo, valor económico e valor social.

Quando aprofundamos o nosso conhecimento sobre as "inovações sociais" verificamos que estas têm que ver com inovações ao nível da prestação de serviços sociais, mas, também, ao nível das organizações e seus desempenhos e não se circunscrevem às instituições do sector social. Isto é, trata-se de inovações dos serviços e dos produtos, são formas novas e, ou, aperfeiçoadas na concepção e produção de serviços sociais, bem como mudanças organizacionais, sobretudo ao nível da gestão de processos e de promoção da inovação social nas organizações, sejam elas instituições sociais, empresas ou sector público.

Muitas vezes, usa-se a expressão "design social" para  descrever as novas abordagens de inovação social. O "design social" implica, frequentemente, a capacitação de pessoas e instituições - púbicas, sociais e empresas - no sentido da resolução de problemas sociais e económicos, através de trabalho colaborativo. Esta metodologia de trabalho colaborativo, experimentação e prototipagem, quando devidamente acompanhada, é de crucial importância na definição de políticas públicas que incorporem estes novos valores sociais. Importa referir que, muito embora as técnicas desenvolvidas no âmbito de processos de inovação social sejam muito diversificadas entre si, em regra, elas tendem a ser mais flexíveis, envolverem mais pessoas e recorrem a modelos de animação e interdisclinariedade que  as  afasta dos tradicionais modelos de planeamento e que incentivam as pessoas envolvidas a "pensar fora da caixa", a serem arrojadas nas soluções que propõem.

Nesta abordagem ao conceito de "inovação social" importa salientar as diferenças relativamente ao uso do termo "inovação" pela industria e tecnologia. Assim, são quatro as principais diferenças da "inovação social":

  1. Quando se trata de propriedade do conhecimento este é aberto e partilhado; em vez de ser fechado e secreto;

  2. A abordagem aos problemas e as soluções encontradas são multidisciplinares e integradas; a solução única é uma coisa do passado;

  3. Há um empoderamento dos participantes no processo de inovação e as decisões são tomadas de forma participativa; o modelo hierárquico em que a decisão é de cima para baixo está ultrapassado;

  4. As soluções são adaptadas às necessidades dos cidadãos e aos problemas locais; está afastado o modelo da produção/solução em massa.

Como já referimos o processo de criação de inovação social pode, e deve, ser estimulado, através da criação de um ambiente favorável ao surgimento de inovações sociais, no desenvolvimento de programas e projectos que estimulem a participação dos vários actores sociais e pessoas interessadas na procura de novas soluções para os problemas sociais e económicos, promovendo uma cultura de experimentação e de criação de valor social e adoptando uma postura de incorporação da inovação nas práticas e políticas públicas. 


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